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Notícias da Missão

Pior surto de cólera nos últimos anos em Lusaka

 

 

Em Lusaka, a capital da Zâmbia, está a assistir-se ao pior surto de cólera dos últimos anos. São os Médicos Sem Fronteiras que o afirmam num comunicado à imprensa datado de 12 de Abril de 2010. Segundo esse comunicado, "durante as últimas cinco semanas o número de casos de cólera subiu dramaticamente acima de 4.500, e mais de 120 pessoas perderam as suas vidas".

 

Centros Provisórios de Tratamento

 

Neste momento, a preocupação dos Médicos Sem Fronteiras é conter a doença. Para isso criaram três centros de tratamento de cólera (CTC) em Matero, Chawama e Kanyama. O número de casos é, de facto, alarmante. Em colaboração com o Ministério da Saúde da Zâmbia, os Médicos Sem Fronteiras trataram já 4.020 doentes desde o dia 4 de Março.

 

Nestes centros montaram um número elevado de tendas provisórias para facilitar o internamento e tratamento dos casos que chegam diariamente. "Na semana passada", diz o mesmo comunicado, "assistimos ao ponto mais alto deste surto com mais de 1.054 internamentos". Por isso, há agora alguma esperança de que o número de casos comece a diminuir.

 

Na semana passada fui visitar um desses CTC em Matero, uma vez que é o centro que serve a zona de Lilanda onde me encontro. Uma das responsáveis pelo CTC de Matero disse-me que não estão autorizados a falar nem a deixar ninguém visitar o centro. Depois de conversarmos um pouco, deixou-me fotografar as tendas. Certamente nos dá uma ideia das dimensões da situação e do secretismo que se criou à sua volta.

 

Necessidade de Água Potável e Instalações Sanitárias

 

A propagação da cólera tem a ver com a qualidade da água e dos esgotos. Por isso, os Médicos Sem Fronteiras estão a fazer um grande esforço para fazer chegar água potável às populações das áreas mais pobres da cidade.

Quando falamos de cólera na Zâmbia, não falamos nada de novo, pois ela é endémica. A situação repete-se ano após ano durante a estação da chuva. Aqui em Lilanda, o número de casos tem sido muito reduzido devido a um projecto de abastecimento de água que o Governo do Japão desenvolveu nesta área em parceria com o Governo da Zâmbia. Este projecto proporciona água potável a toda esta área da cidade, abrangendo uma população de mais de 100 mil pessoas.

 

As zonas mais afectadas pela cólera (e por outras doenças como a sida, tuberculose, etc.) são as zonas pobres da cidade; estas zonas são normalmente abandonadas pelos políticos que só aparecem em tempo de eleições. Talvez um dia o Governo se dê conta que estes são também cidadãos da Zâmbia.

 

Horácio Rossas

Missionário Comboniano, em Lusaka, na Zâmbia

Solidariedade com a Madeira

 

Bento XVI mostrou-se «consternado» com o temporal que se abateu sobre a Madeira. Em mensagem enviada ao bispo do Funchal, D. António Carrilho, o papa diz-se «consternado com as graves consequências dos recentes aluviões na ilha da Madeira, que provocaram dezenas de mortos e enormes danos materiais aos seus habitantes». Ao mesmo tempo, garante a sua solicitude para com as populações e lembra as vítimas mortais, os feridos e seus familiares, bem como os que perderam os seus bens.

D. António Carrilho afirmou que as instituições ligadas à Igreja estão a colaborar no auxílio às populações, em estreita colaboração com as instituições públicas. «O apoio da diocese presta-se a dois níveis diferentes: ao nível da relação e actividade pessoal de cada um dos cristãos, conscientes da sua responsabilidade, de ajuda fraterna; e presta-se ao nível das instituições - de modo particular a Cáritas com uma visibilidade maior - em cooperação com outras instituições públicas e privadas», disse.

À Madeira chegou uma mensagem de apoio do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Jorge Ortiga. Este responsável diz comungar «as horas de dor e de perplexidade experimentadas pelo povo da Madeira», assegurando «a mais profunda comunhão humana, cristã e eclesial».

A Cáritas Portuguesa enviou 25 mil euros à congénere do Funchal para ajudar a fazer face às primeiras necessidades causadas pelo temporal. Em comunicado, a organização católica anuncia também a criação de uma conta para onde podem ser enviados contributos em favor dos madeirenses.

«Ao vê-lo, o meu ateísmo desmoronou-se»

Testemunho do Pe. Ramiro

No dia 29 de Novembro de 2009, o P.e Ramiro Loureiro da Cruz celebrou 50 anos de sacerdócio. Foi o primeiro responsável português dos Combonianos em Portugal. Depois, foi missionário no Equador, na Colômbia e no Brasil. Actualmente está em Moçambique, na formação de novos sacerdotes. Entre as muitas memórias, há umas muito marcantes...

 

 

Na Quarta-Feira Santa de 1963, encontrava-me na Amazónia colombiana, na diocese de Villavicêncio. Como missionário, tomava a meu cuidado as aldeias indígenas. Muitos colonos vinham estabelecer-se por ali, e procuravam-me para baptismos, reconciliação, eucaristia e catequese. Viviam sem padre, dado o reduzido número de sacerdotes da diocese. Eu procurava atender todos os pedidos. Entre esses lugares, havia um chamado Buenos Aires. Nada de especial, não fosse encontrar-se lá a sede do comando da Frente 39 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), comunista e ateia. Havia quem me aconselhasse a não ir. Eu, porém, cheguei à convicção de que devia ir lá também, mesmo correndo algum risco: eu devia atender os muitos filhos de Deus que lá viviam. Senti que o não ir seria cobardia - e não prudência! E lá fui, na Quarta-Feira Santa para celebrar a Quinta-Feira Santa com eles.

Anuncio a chegada batendo à porta das famílias. Nisto, aparece ao cimo da estrada uma senhora dos seus 40 anos. Informam-me que é a Dra. Arjemis, comandante da Frente 39 das Farc; que era comunista e não via com bons olhos nem Deus nem a Igreja! Ela interpela-me: «Quem é o senhor? Que faz aqui?» Explico quem sou e a razão da minha presença: no dia seguinte, para os cristãos, celebrava-se a comemoração da despedida de Cristo. Ela convida-me para ir comer e dormir na sede do comando. Terminadas as visitas às famílias, vou para a sede. Ali, a comandante expõe-me as razões e a finalidade do seu movimento.

Exponho-lhe, por minha vez, as razões da minha fé, que me motiva a dedicar toda a minha vida ao Cristo que, primeiro, entregou a Sua. Ela passa todo tempo da refeição a explicar-me as razões do marxismo e da sua rejeição da religião, esse «ópio para o povo». Terminado o jantar, ficamos sentados, ela e eu ainda à mesa... E ela diz: «Sr. padre, quero ser sincera consigo.» Titubeando, a pensar que me poderia mandar pôr nalgum calaboiço, respondi: «Diga o que tem a dizer. Estou aqui para ouvir.» Ela continuou: «Eu disse-lhe que não creio em Deus. Esta tarde, porém, quando o vi, "mi ateísmo se derrumbó" (o meu ateísmo desmoronou-se). Caras como a sua aparecem todos os dias para vir buscar a cocaína dos camponeses. O Sr. não veio para isso; não está armado; não é do exército nem da guerrilha. O Sr. não tem cara de tonto. Sabe muito bem que é perigoso vir aqui e estar aqui. Se veio aqui com essa cara, "só um Deus o pode trazer; nesse Deus EU CREIO; no outro deus de uma estrutura aliada a poderosos que oprimem os pobres, nesse eu não creio!»

Ao fazer-Se um de nós, Jesus quis retocar cada "filho de homem" e transformá-lo em "filho de Deus", no Espírito do amor que reina em Deus e quer reinar nos corações das pessoas e na sociedade. Ninguém respeita tanto a liberdade humana como o nosso Deus. Ele inspira a procura do melhor para cada um e para todos. Paciente, levanta-nos sem cessar e coloca-Se ao nosso lado, no caminho. Habitualmente, torna-Se-nos presente em alguma pessoa, cujo testemunho nos arranca às trevas e ao ateísmo.

P.e Ramiro Loureiro da Cruz

Entrevista ao P. Alfredo Neres

 

Sou missionário Comboniano português. Há 38 anos que sou padre e trabalhei 16 anos aqui em Portugal e os outros 23 no Congo.

No Congo o meu trabalho principal foi, durante 19 anos, ser pároco em paróquias no norte do Congo, num ambiente muito atrasado, digamos assim. Onde não há água corrente, onde não há telefone, num ambiente muito simples, no meio daquela gente. Foi um trabalho que me ajudou muito a encontrar Cristo na simplicidade do povo.

Agora há três anos que estou em Kinshasa, como formador dos escolásticos, é um trabalho completamente diferente. Dantes ia visitar as comunidades no mato, encontrar-me com as pessoas. Agora estou ali fechado no seminário, no escolasticado para estar todos os dias em contacto com os escolásticos. Foi o trabalho que me deram, não sei quanto tempo vai durar, nós não temos tempos fixos.

 

Gostavas mais do trabalho anterior, do contacto com as pessoas, do trabalho pastoral?

O trabalho pastoral é muito mais entusiasmante, até porque isto em Kinshasa, as nossas casas e também as casas dos civis estão todas circundadas por altos muros de três, três metros e meio. Não se vê nada do que está lá dentro, nem de dentro se vê o que está lá fora. Dá a impressão que estamos todos metidos em prisões e isso não nos dá aquele à-vontade no contacto que tínhamos com as pessoas.

Eu gosto do trabalho com os escolásticos, mas fora isso, o que me dá mais entusiasmo é o contacto com os presos e os leprosos. Ao domingo vou sempre celebrar a missa à prisão ou à leprosaria. O contacto com esses pobres dá-me uma alegria grande poder estar com eles.

 

Fala-nos do Congo, da situação sociopolítica.

O Congo continua ainda em guerra. Infelizmente, desde 1996 que começou esta primeira guerra. Depois houve uns tempos de interregno, mas depois retoma outra vez a guerra. Actualmente a guerra existe no Norte, nem se pode falar de guerra, é uma guerrilha do movimento ugandês ??? que passa pelas aldeias, rouba tudo aquilo que pode, mata as pessoas que resistem, queima as cabanas das pessoas. Já destruiu algumas paróquias, uma das nossas, onde os combonianos trabalhavam e onde agora não existe absolutamente nada, queimaram as casas onde moravam os padres, onde moravam as irmãs, queimaram o hospital, queimaram as escolas e queimaram todas as cabanas das pessoas. As pessoas fugiram todas para a floresta. Os nossos confrades foram maltratados. Agora voltaram, um voltou e já está lá perto numa missão a 95 quilómetros e, de vezes em quando, vai ainda assistir os cristãos que estão no meio da floresta. Outro missionário está no Sudão para assistir os refugiados que fugiram daquela paróquia que fugiram para o Sudão porque é mesmo na fronteira e o outro ficou no Uganda com os nossos noviços.

 

Quais as perspectivas de paz na solução desse problema?

Aparentemente nós não vemos perspectivas porque parece que há uma conivência entre os dirigentes do Congo e este movimento rebelde, porque os soldados do Congo nunca atacam os rebeldes, deixam-nos fazer aquilo que eles querem. Vêm tomar posições depois de terem passado os guerrilheiros. Mesmo os militares do Congo que não são pagos também roubam o que os rebeldes deixaram para trás, e as pessoas não ficam contentes.

A outra guerra que é no Leste do Congo, ao longo da fronteira com o Ruanda, o Burundi e parte do Uganda. É uma das zonas mais ricas do Congo onde existe o coltan e o níquel. São dois produtos que servem muito para os telemóveis, para as comunicações, para as baterias... As grandes potências internacionais estão muito interessadas nisso e não estão interessadas em que haja paz porque enquanto houver guerra eles podem levar esses produtos a preços insignificantes a troco de armas.

Essa foi uma das mensagens muito fortes do último sínodo dos bispos, onde se falou dos interesses estrangeiros por trás dos conflitos em África. Os conflitos ali não são gerados pelos africanos, isto é, aparentemente são os africanos porque são só africanos que estão lá a fazer a guerra, mas por trás daquilo estão as potências estrangeiras, sobretudo as que estão muito interessadas em telecomunicações, para poderem ter essas matérias primas a preços irrisórios.

 

A Igreja tem alguma voz profética na denúncia desses interesses obscuros?

Os bispos do Congo continuam a emitir comunicados, mensagens e cartas pastorais onde eles denunciam claramente tudo isto. Se por um lado as pessoas do Congo estão interessadas na paz, o problema está nessa gente dos países estrangeiros que não ligam nenhuma a essas mensagens. Mas nesse sentido, a Igreja do Congo, quer os bispos, quer os leigos estão verdadeiramente empenhados em criar a paz e têm dado a vida por isso. Já alguns bispos e padres congoleses foram mortos por causa dessa defesa dos direitos do homem de fazer a paz.

 

O que fazem os missionários combonianos no Congo?

Nós, enquanto combonianos temos diversos campos de acção. A maior parte dos nossos confrades estão a trabalhar no Norte do Congo na pastoral directa com as populações pobres e abandonadas porque lhes falta ainda tudo. Temos ainda hoje missões onde não há água, não há luz, não há telefone, não há internet, não há nada. São essas missões que os combonianos procuram manter, ocupar e desenvolver. Isto é um trabalho directo, apostólico no meio das comunidades cristãs. É um trabalho directo de evangelização, ir de aldeia em aldeia visitar estas comunidades, muitas vezes tem que se ir a pé, outras vezes vai-se de bicicleta ou de moto. De carro não se pode chegar a lado nenhum porque as estradas desapareceram todas. É um trabalho que é bastante duro, mas é um trabalho que dá muita alegria aos missionários poder ir ao encontro das pessoas e as pessoas apreciam muito isso porque vêm que os missionários dantes tinham carros, porque havia estradas boas, agora vão a pé, vão de bicicleta ou de mota pelo meio daquelas picadas do mato cheias de buracos e no tempo das chuvas os buracos cheios de água, lama, se cais ficas todo enlameado da cabeça aos pés, mas é um trabalho muito entusiasmante.

Outro trabalho que nós estamos a fazer é na formação dos catequistas e dos líderes das comunidades cristãs. Temos um centro, um centro pastoral, nesse sentido temos tido diversos centros que temos passado à Igreja local. Agora temos ainda um que se chama Dondi? E lá estão os nossos colegas que, continuamente, dão cessões de formação para catequistas, líderes de comunidades e também formação para agentes sociais, gente que se interesse pela justiça e paz. E isto tem estado a dar muito bons resultados.

Em Kinshasa temos também um centro de espiritualidade e animação missionária onde nós acolhemos pessoas que querem fazer retiros, que se querem encontrar para uma espiritualidade missionária muito profunda. Além disso temos também um centro, como temos aqui em Portugal Além-Mar. Lá temos a revista «Afriquespoir», com edições de livros da revista Afriquespoir. É um centro com muita incidência no Congo, como voz profética no Congo.

Um santo Natal e feliz 2010

 

É com alegria que vos saúdo neste tempo sempre tão belo do Natal. "Já há muito tempo que não dás noticias?" É a mensagem que mais se repete nos últimos e-mails que recebi. Obrigado pela vossa preocupação e amizade. Estou bem e feliz!

 

Uma boa notícia:

Graças a Deus choveu até ao meio de Outubro, o que permitiu à nossa gente ter boas colheitas de amendoins, milho, feijão...  Aliado ao cansaço dos trabalhos, sempre duros do campo, há o sorriso de quem vê o fruto...  Uma alegria que tem uma "curta" duração! No mercado um saco enorme de amendoins tem o valor do correspondente a 15 €, o saco de milho apenas 10 €... os preços são baixos, muito baixos para quem duramente trabalhou a terra, viveu a incerteza das chuvas e tem nas colheitas a sua única fonte de vida! Porém, ninguém pode impedir a festa da vida!

 

Uma realidade significativo:

Um dia fui visitar uma comunidade eclesial de base e um senhor no momento da partilha dizia que "tinha dois novos estrangeiros em casa". Pensei que se tratava de alguém vindo da aldeia, ou talvez da capital! Porém, quando lhe perguntei no final da oração, ele sorriu e disse: "não, são os meus dois gémeos que acabam de nascer!" "Mba, mba ri wa" (Estrangeiros, porque?) Ele respondeu: "porque só são considerados membros da família depois do rito de apresentação à família. Cerimonia durante a qual se dá o nome."

Ser estrangeiro! Ser, ou sentir-se estranho, raro... como um peixe fora de água! Um recém-nascido faz certamente a experiência desta ruptura. Todos nós passamos por lá! Há, no entanto, outros momentos na nossa vida, aonde esta realidade de "ser estrangeiro" regressa com mais ou menos força! Não se trata, certamente, apenas da distância do país de origem, mas de algo bem mais profundo!

 

Um desejo:

Neste tempo de natal sinto um forte apelo a saber o "nome" de todos esses "estrangeiros" que encontro no caminho da minha vida para que a minha família cresça às dimensões da humanidade. É o apelo Daquele "que veio partilhar a Vida com os Seus, mas os seus não o reconheceram"!

 

Que Jesus-menino, o "estrangeiro" que vem partilhar a nossa humanidade, vos abençoe e anime interiormente a percorrer os caminhos da vida com a certeza que temos um nome, uma família, um destino...

 

"Alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos no céus" Lc 10, 20

 

Um santo Natal e feliz 2010

 

Foto 2 - As vezes é bom ser estrangeiro! Momento em que o chefe da aldeia, que fui visitar pela primeira vez, me oferece um galo. Um momento que se repete com frequência!

 

Pe. João Costa

O missionário que nunca diz não

Açoriano determinado, o padre Francisco de Medeiros trabalha na África do Sul há 17 anos. E já há dois que está em Acornhoek, uma missão junto ao Parque Nacional Kruger, na fronteira com Moçambique. Nunca recusou nenhum desafio ou virou as costas a qualquer pedido que os superiores lhe tenham feito. Enfrenta o imprevisto e as dificuldades com simplicidade e o tão português espírito de desenrascanço.

 

O padre Francisco de Medeiros, vulgarmente conhecido por padre Chico, aterrou quase sem pré-aviso em Acornhoek em Janeiro de 2007. Vinha da paróquia de S. Pedro Claver, em Mamelodi (Pretória). Nos últimos anos que lá passou, dedicou parte do seu tempo e energias à comunidade de Mahube Valley, situada numa zona pobre e periférica da cidade negra. A comunidade cristã da área estava a crescer e ele, que entretanto se tinha afeiçoado à «sua» gente, construiu um grande salão multiuso para as celebrações. E já planeava construir uma pequena residência, a fim de mudar-se para lá logo que a paróquia de S. Pedro fosse entregue ao arcebispo.

Nessa altura, a paróquia já se podia considerar auto-suficiente, tanto ao nível financeiro como de ministérios. O problema, às vezes, era travar um pouco tanto espírito de iniciativa. Por exemplo, só grupos corais capazes de transformar uma celebração num autêntico show chegavam a uma dúzia! Com a «máquina» a funcionar em pleno, o padre Chico pensava finalmente ter tempo para se dedicar mais à gente de Mahube Valley, para ajudar a comunidade a crescer ainda mais. O seu sonho, porém, não se realizou. Os superiores tinham outros planos para ele, e - como já tinha acontecido várias vezes - teve conhecimento do seu novo destino praticamente na véspera: «O provincial telefonou-me num sábado à tarde a dizer que queria falar comigo. Quando nos encontrámos, disse-me que tinha alguém para me substituir. No dia seguinte às 7.15 da manhã chegou o colega indigitado para ver a sua nova paróquia.» Ele ia para o «mato».

Um mês depois, o padre Chico chegava a Acornhoek, uma missão rural nas faldas do Parque Nacional Kruger e de múltiplas reservas de animais selvagens e de caça na zona fronteiriça com Moçambique. Não sabia a principal língua da zona, o shangaan. Mas aceitou a destinação «por obediência», confessa, porque nunca soube dizer não aos superiores. Repetia-se pela enésima vez a mesma história: era mudado de lugar sem um anúncio prévio que lhe desse tempo para se despedir devidamente e preparar-se psicologicamente para a nova tarefa. Habituado a ser uma espécie de bombeiro, sempre pronto a acudir a algum colega ou a tapar do pé para a mão algum buraco, ele aliás nem se queixa.

 

Coxo nas línguas

 

A região de Acornhoek, um dos principais destinos turísticos da África do Sul, não é, como poderia parecer, uma estância de férias. Pelo contrário, a missão, onde já trabalharam dois outros portugueses, o irmão Artur Pinto e o padre Luís Filipe Dias, é bem árdua e espinhosa. Para começar, o padre Chico ficou praticamente sozinho até Novembro desse ano - só teve a companhia de um estudante durante 4 meses -, e sozinho se encarregou de acompanhar quase 40 comunidades cristãs, uma tarefa que sempre deu trabalho a três missionários.

Como se não bastasse, muitas vezes ficou às escuras, devido ao plano de racionamento da energia. Isto porque a companhia eléctrica nacional - ESKOM - foi negligente nas suas previsões. Enquanto o consumo crescia abandonou o projecto de construção de centrais nucleares (diz-se que o dinheiro foi investido em armas) e, por razões políticas e humanitárias, continuou a fornecer energia ao caloteiro Zimbabué. O preço da electricidade subiu mais de 50 por cento e a vida de muita gente passou a ser afectada por cortes diários. Numa missão particularmente vulnerável aos assaltos, a sua preocupação com a segurança só podia aumentar também. Diga-se que coube ao padre Chico substituir um colega mexicano que tinha sido atacado, espancado e roubado - o que, infelizmente, se tornou uma prática comum no país do arco-íris na era pós-apartheid. O susto foi tão grande que o missionário começou a emagrecer e a ter reacções descontroladas de desconfiança e medo, o que forçou a sua partida, a fim de passar por um período de repouso e terapia.

Para o padre Chico, pelo menos a solidão chegou ao fim. Pouco a pouco, a comunidade comboniana reconstruiu-se: no início de Novembro chegou o padre Ivan Paucare, do Equador, e em Abril do ano seguinte chegou um outro mexicano, o padre José de la Cruz, para estudar shangaan. Entretanto, o padre Chico teve de cuidar de todas as comunidades - oito de língua sepedi, as restantes de língua shangaan. Algumas são mistas, mas o melhor é ter a liturgia em shangaan: «Quem não souber a língua ficará sempre coxo nesta zona», comenta.

Porém, como já lhe acontecera várias vezes noutras regiões da África do Sul, o trabalho urgia e não havia tempo para uma aprendizagem formal da língua. Ficou-se pelo treino da leitura, dos cumprimentos e das perguntas e respostas mais frequentes. Felizmente, já tinha algumas luzes de sepedi e shangaan por causa de uma passagem nos anos 90 pela missão de Waterval, que fica a cerca de 70 quilómetros, também na província de Mpumalanga, na zona este do país. Para contornar o problema, começou por escrever as homilias em inglês e a pedir a alguém para traduzir. Depois, com a ajuda do dicionário, passou a aventurar-se directamente no shangaan. Claro, escrevia frases simples e não tinha pretensões de fazer grandes tiradas teológico-espirituais. Mas o esforço compensou porque, com o passar do tempo, o número de erros linguísticos começou a diminuir substancialmente.

 

Retomar o pé

 

«Os primeiros tempos foram muito difíceis», reconhece. Não entendia o que a gente lhe dizia. Não conhecia os lugares e as pessoas. Teve de fazer um novo plano de trabalho pastoral de modo a assistir o maior número possível de comunidades. Não havia - como não há ainda - um catecismo em shangaan e um missal para os dias feriais: era preciso usar a Bíblia para as leituras e recorrer às orações dominicais já traduzidas. A pressão era muita e, por isso, recomeçou a fumar - se bem que esporadicamente - o seu cachimbo, o que lhe dá um ar aristocrático que não condiz em nada com a sua postura simples, a sua falta de preocupação com as aparências e a facilidade com que deita mão aos trabalhos mais «sujos». Mas, mais uma vez, as dificuldades não lhe meteram medo e, com a humildade de quem sabe escutar, aceitar reparos e ajuda, foi retomando o pé.

O último catequista pago pela missão - uma instituição que vinha quase desde o início da evangelização na zona nos anos 30 do século passado - tinha terminado o contrato em Junho de 2007. A pastoral recaiu toda sobre os seus ombros e dos diversos ministérios existentes nas comunidades - catequistas do catecumenato, do crisma, das duas fases da Escola Dominical (até aos 8 anos e dos 9 aos 12), ministros extraordinários da comunhão, líderes dos funerais, grupos de justiça e paz, grupos juvenis, grupos de sensibilização para o problema do HIV/sida e das diversas associações paroquiais. Mesmo que alguns dos grupos e ministérios, admite, precisam de ser dinamizados. Sendo uma zona rural onde o emprego escasseia, muitos jovens e líderes capazes tendem a ir para as cidades e muitas vezes há dificuldade em arranjar até quem possa ler as leituras durante os serviços religiosos. Nas aldeias ficam as mulheres e as crianças, além dos professores e enfermeiras.

 

Espinhos canónicos

 

Uma das questões pastorais que lhe requerem particular atenção é o casamento. A exigência cultural do pagamento do dote por parte da família do noivo à família da noiva - geralmente sob a forma de cabeças de gado, mas que pode também envolver dinheiro - atrasa a celebração do matrimónio. Os cônjuges acabam por viver juntos por muitos anos e quando se propõem casar já têm filhos crescidos. Além disso há uma tendência para a poligamia, uma forma de afirmação masculina. Não admira que o Direito Canónico seja um dos assuntos mais questionados nas reuniões do clero.

Os casos, por vezes, não são simples de resolver. O padre Chico conta um: «Tive um caso de um homem casado tradicionalmente, que casou em segundas núpcias com uma católica, que o arrastou para a Igreja. Tornou-se o líder da comunidade e pedia para ser baptizado. Que fazer? Despedia a segunda mulher, como diz o Direito Canónico? Mas o casamento não é só com uma mulher, mas com a família.» Não faltam exemplos em que as leis eclesiais chocam com algumas tradições culturais. «Outro caso complicado de resolver é quando morre um irmão e o irmão mais velho é chamado a assumir a família do falecido e cuidar da esposa e dos filhos que porventura tenha - o chamado caso do levirato.»

Por tradição, quando se casam, as mulheres sul-africanas devem adoptar a Igreja do marido. Para as católicas que se casam com um não católico, o matrimónio é quase sempre um adeus à comunidade católica. As não católicas que casam com um católico terão de ser formalmente aceites na comunidade, através do baptismo, se houver dúvidas sobre a validade do que já receberam. Mas que grau de liberdade existe por detrás dessa decisão? O padre Chico é enfático no seu comentário: «As opções pastorais obrigam-nos a fazer jogos de cintura com a lei canónica. Um caso que ainda recentemente gerou polémica foi a aceitação ou não do uso do preservativo por pessoas infectadas com o vírus do HIV/sida. O bispo Kevin Dowling, de Rustenburg, por exemplo, defende que o seu uso é para o bem comum, ou seja, para não infectar mais gente.»

 

Pastoral intensa

 

A missão de Acornhoek fica quase no centro da paróquia - tem uns 60 quilómetros de área para um lado e uns 40 para o outro. A maior parte das estradas são de terra batida que, com o uso e a chuva, tendem a ondular e tornar-se ainda mais hostis para quem sofre da coluna, como é o caso do padre Chico. Mas nem isso é um impedimento. A partir de terça-feira sai geralmente depois de almoço para chegar à comunidade por volta das 14.00. Visita os doentes e dá catequese por volta das 15.30. Segue-se a missa, que deve terminar antes de escurecer. Às vezes carrega a carrinha pick-up com umas vinte pessoas para irem ajudar as comunidades mais pequenas.

Ainda tem cinco comunidades onde a celebração se faz debaixo de uma árvore, o que não é nada agradável quando chove. Às vezes, porém, há males que vêm por bem. Conta que um dia, enquanto celebrava numa comunidade sem capela, começou a chuviscar. Os livros e as pessoas molharam-se. Logo depois, os homens chegaram da cidade para celebrarem o Natal com as suas famílias. Em duas semanas levantaram as paredes para uma capela. «Fiquei admirado com a iniciativa demonstrada», diz. Entretanto, a construção das cinco capelas já começou. As comunidades estavam prontas a colaborar. Com as ajudas que o padre Chico recebeu de familiares e amigos, comprou cimento que entregou aos fiéis para fazerem blocos e avançarem.

O bispo de Witbank, que entretanto foi transferido para Pretória, mostrou-se satisfeito com o trabalho desenvolvido. Num encontro chegou a apresentar Acornhoek como um exemplo a ser seguido em termos de contribuição financeira das paróquias rurais para a diocese. O esforço compensa.

 

JOSÉ REBELO,

Director de World Mission

 

Missionário comboniano no Darfur: só Deus o saiba

Viver a missão cristã num ambiente hostil requer capacidade de diálogo, abertura e confiança na bondade das pessoas e na eficácia de gestos e acções que só Deus vê.

 

 

Em passo ligeiro, caminhava em direcção a Kereri, um dos centros católicos, a 4 quilómetros a este da igreja de Nyala. Ia encontrar-me com os pais e padrinhos das quarenta e uma crianças, reunidos com o catequista Samuel Kur para a preparação do baptismo. Seja dito de passagem que, em reuniões como esta, a presença dos homens fica diminuída até mais de metade devido às operações militares nas várias frontes de guerra no Darfur.

 

Segurança

 

A meio caminho andado, ao pisar o grande areal da mesquita de Abuja, uma carrinha de caixa aberta parou a pouca distância de alguns jovens que ali se entretinham a jogar a bola. «Vou juntar-me àqueles rapazotes e sairá, num instante, do atoleiro da areia», pensei. Mas tal não foi necessário. A causa da imobilidade do Toyota teria sido outra. Acabei de atravessar o enorme recinto aberto sem me ter, necessariamente, cruzado com o veículo. Senti, no entanto, que não passei despercebido. Dois olhos atentos seguiam os meus passos.

Já estava a meio da próxima rua quando vejo o mesmo carro que avança ao meu encontro, até que parou ao meu lado. A saudação autoritária daquela figura de cor branca solene - jilaba, turbante e chale (espécie de cachecol de um tecido fino e ligeiro que completa o traje árabe sudanês, de cor branca, assim como também o turbante e a jilaba) - deu-me claramente a entender que estava em presença dum agente da segurança do Governo ou da polícia secreta. A seguir, num tom rude e provocador, perguntou:

- Libanês ou egípcio?

- Europeu - respondi secamente e sem vontade de alimentar conversa.

- Para onde vais?

- Kereri.

- É lá a tua residência?

- Não, mas tenho gente que me espera no centro cristão que se situa nesse bairro.

- Qual a ONG em que trabalhas? Quem te paga para estares aqui no Sudão?

- Não trabalho em ONG alguma. Pertenço à Igreja Católica. Não tenho um salário garantido nem estipulado. Mas não hei-de morrer de fome, in sha Allah.

- Qual é o teu trabalho específico?

- Sou padre católico.

«Melhor será identificar-me de uma vez», pensei. Meti a mão na sacola, à procura do dito documento. Gesto que ficou a meio, pois o tom sereno da pergunta seguinte inspirou-me confiança:

- Padre daquela igreja situada no el Suq el Kabir de Nyala?

- Sim, essa é a igreja católica.

Vi o condutor mudar de semblante. Nos seus lábios apareceu um sorriso que não era de fingimento. Desceu do veículo e a sua mão apertou a minha num gesto prenhe de amizade e afecto.

- Mabruk, parabéns! Tenhas um dia feliz - concluiu.

Aquele homem terá sido testemunha - como não? - da consolação e alegria que invadiu o meu estado de espírito. Já o automóvel começava a mover-se quando os meus lábios soltaram palavras de rotina, mas verdadeiras: «Obrigado! O mesmo te desejo a ti!»

 

Igreja comunidade

 

O encontro com aquela figura do Governo absorveu o resto do meu caminho, que senti mais leve e menos longo. Cheguei ao destinado local e, enquanto o número do pessoal da assembleia se completava, ia-se conversando à vontade. Uma ideia, porém, tomou corpo e o catequista Samuel assentia com os presentes: «Penso que o padre Feliz não porá objecção ao vosso desejo. Vamos propor-lhe que a celebração baptismal se faça aqui no nosso centro de Kereri, em vez de na igreja matriz, em Nyala.»

- Proposta aceite - respondi, enquanto devolvia o copo de alumínio que uma das mães me tinha oferecido com água que tirou do zir, a grande bilha de barro poroso. No início da reunião, contei-lhes a história daquela desconhecida autoridade que me obrigou a responder a um interrogatório ameaçador para, no fim, me dar o prazer de um desfecho feliz.

A proposta da comunidade ali reunida não era simplesmente banal nem tão-pouco uma questão de mera comodidade. O Espírito Santo tinha sugerido neles um desejo que os levaria mais além na vivência da sua fé. Eles mesmos quiseram colocar a circunstância do acontecimento no centro do encontro daquela tarde. Estava em questão o significado da igreja-comunidade e o lugar que, nela, cada cristão é chamado a viver. O baptismo dos filhos recorda e evoca o baptismo dos pais com o seu testemunho e compromisso de todos os dias.

O grande copo de alumínio foi circulando pela assembleia, que não tinha pressa em levantar a sessão. Antes de finalizar com uma oração espontânea da parte de alguém da assembleia, foi ainda a minha vez de recordar os pontos essenciais do encontro:

- A igreja mãe está situada no el Suq el Kabir, na cidade de Nyala, mas estende-se até onde quer que exista uma comunidade cristã. Em Kereri ou qualquer outro lugar, não importando de que material seja construída: tijolos, palha, canas de milho/sorgo ou bambu. Ou simplesmente debaixo da frondosa ramagem de uma nima, ou mesmo à sombra diminuída de uma lalobe (árvore espinhosa). A qualidade de uma igreja mede-se pela actividade dos seus membros. A Kanissa - a igreja - palavra árabe que pronunciamos a cada momento, tem a ver, de facto, com um grupo de pessoas que se juntam em assembleia. Quem faz deles kanissa, igreja, é a pessoa de Jesus Cristo que a ela preside.

E continuei:

- Um estranho e desconhecido brindou-me com os parabéns. Eu recebi-os em nome da igreja-comunidade cristã da qual todos nós fazemos parte. Foi em vosso nome que o fiz. A responsabilidade e o testemunho do padre ou outro responsável da igreja do el Suq el Kabir estende-se a cada um de vós e, a seu tempo, aos vossos filhos ou afilhados que apresentais para o baptismo. Somos todos responsáveis directos no testemunho da fé, neste ambiente de minoria cristã e, muitas vezes, hostil e de perseguição contra os cristãos. Um testemunho que não espera agradecimento, muito embora este não esteja sempre ausente no coração das pessoas, como foi o caso do funcionário do Governo que hoje me apareceu no caminho. Dele recebi palavras de encorajamento para a vivência da nossa fé. Vivamo-la a tempo e fora de tempo (como disse S. Paulo), em casa e fora de casa, em tempo de paz e em tempo de guerra e perseguição, com os amigos e com os inimigos (como disse Jesus Cristo).

 

Só Deus sabe

 

A Angelina, ali pertinho de mim, estava com ar de querer falar. Encorajei-a a levantar a voz. Ouvimo-la rezar:

«Senhor Jesus, não entendo bem o que significa ser tua testemunha. Faço poucas boas acções fora do pátio de minha casa porque os filhos - o mais velho é doente cardíaco - ocupam-me quase todo o tempo. O meu marido não encontrou outro modo de sustentar a família senão na vida militar. Já há mais de dois meses que não tenho notícias dele (tê-lo-ão matado?) e não recebemos nada do seu salário. Até há umas semanas, passávamos necessidade. Mas, agora, eu e os meus filhos passamos fome. Agradeço-te, Senhor, pela ajuda que nos tem chegado a casa por mão de alguém que, por vezes, só Tu conheces. Peço-te que guardes o meu marido e outros que, como ele, foram forçados a alistar-se no exército para que a família pudesse viver. Que voltem sãos e salvos. Não haja mais guerra no Darfur, in sha Allah!»

Fez uma pausa, que todos respeitámos como silêncio sagrado. Olhou em volta, como que a pedir licença para continuar. E acrescentou:

«Acredito que os parabéns com que o tal senhor congratulou o P.e Feliz sejam verdadeiramente merecidos. Mas o que aquele homem tinha em mente quando pronunciou aquela palavra, só Deus o sabe. A Ele pedimos sabedoria e coragem para viver o amor-caridade com todos, cristãos e não cristãos, sobretudo nas zuruf [circunstâncias] mais difíceis e arriscadas para a nossa fé.»

A Mary, que conhecia bem de perto o testemunho de vida desta sua amiga e vizinha, disse: «Parabéns, Angelina».

- Eu?! Porquê? - perguntou, pondo a descoberto a sua humildade. 

A Mary estava bem certa da sua afirmação. Só teve receio de ficar aquém da medida exacta. Voltou-se de novo para a Angelina e disse, pausadamente:

- Deixa que só Deus o saiba...

As vozes confirmativas ouviram-se por toda a assembleia: «Ámen»!

 

Pe. Feliz da Costa Martins

 

Missão como Encontro

 

Ao longo destes últimos três anos, o maior sentido de realização como missionário encontrei-o na visita a pessoas a quem a guerra privou dos seus entes queridos, familiares ou amigos.

 

Hoje o sol já é de pouca dura. Mas ainda queria estar uns momentos com a Sara, que perdeu o marido e a filha pequenina durante o ataque de há duas semanas na sua aldeia de Katila. Agora vive com o seu tio Raziq, que lhe deu abrigo na cidade de Nyala. Convidaram-me para um chá de menta lá em casa, onde continuaríamos a partilhar caminhos de reconciliação. Mas hoje já se faz tarde. As regras do recolher obrigatório são claras: «Não somos responsáveis do que aconteça a um estrangeiro depois do pôr-do-sol.»

Os momentos do meu dia-a-dia estão preenchidos com afazeres na paróquia, na escola e nos campos de desalojados. Mas ao longo destes últimos três anos o maior sentido de realização como missionário encontrei-o na visita a pessoas a quem a guerra privou dos seus entes queridos, familiares ou amigos. Gestos que, porventura, acontecem em qualquer lugar neste mundo; mas tendo em conta a situação muito particular que estamos a viver no Darfur, revestem-se de suma importância. Sob a aparência meramente humana, são encontros que levam em si a marca indelével do Evangelho. Marca de carácter universal, uma vez com muçulmanos, outra vez com cristãos e ainda com animistas/pagãos.

Não tenho dúvida que traduzem uma verdadeira atitude cristã e missionária. Não se trata de fazer proselitismo mas de testemunhar Deus que se torna presente aí nessa partilha, a tal ponto de o poder tocar com mão através do calor humano que fica a circular entre os presentes. É um encontro em que, por vezes, o silêncio se torna parte essencial, fazendo emergir os sinais da presença divina no rosto e no coração de quem ainda não conhece o Deus dos cristãos. Aquele Deus que caminha connosco nesta terra e vem habitar corações onde a vingança deixa lugar à reconciliação. Um milagre que não é espontâneo nem de fácil empreendimento. A caminhada é longa mas a semente já começou, aqui e além, a germinar. Houve casos em que a lógica humana da vingança não levou a melhor. Até os próprios criminosos e encarniçados sanguinários Janjawid, que roubaram a vida a familiares e amigos, começaram a ter um cantinho de perdão no seu coração.

Que futuro tem uma presença missionária marcada pelo encontro? Que futuro tenho eu como missionário aqui? Para mim, o futuro será o agora e o presente que me esforçarei de levar a cabo todos os dias. Serão os darfurianos a determinar os meus passos, procurando eu, juntamente com eles, ir ao encontro da sua dignidade como seres humanos e filhos de Deus. A minha preocupação é e será a de não deixar cair a esperança daqueles a quem sou enviado. Que se traduzirá em paz e reconciliação no cantinho do coração de cada homem e mulher que segue a estrela que brilha no horizonte. A estrela de Deus que veio caminhar com os homens de ontem e de hoje. A luz que veio iluminar os corações, fazendo visível a presença do divino no humano.

Eu sei que, na sua tarefa, o missionário não está sozinho. A Igreja está comigo. Mas desejaria que esta expressão fosse entendida no seu pleno sentido. Eu não sou apenas apoiado, assistido e muito menos me considero patrocinado pela Igreja como instituição. Sinto-me, sim, membro da família que é a Igreja, onde circula e corre o mesmo sentir do seu Mestre e Senhor Jesus que a todos quer abraçar no seu amor.

 

 

Feliz da Costa Martins

Memória do Padre Ivo Martins do Vale

 

 

Na plenitude da sua vida, com apenas 57 anos de idade e depois de 16 anos de trabalho em Portugal e outros 16 na Etiópia, o P.e Ivo do Vale deixou ao instituto comboniano e à Igreja portuguesa uma preciosa herança missionária: o testemunho de uma vida entregue à missão cristã, sem reservas, com a alegria e a transparência que o aproximaram de todos os que o conheceram.

 

 

Ivo Martins do Vale nascia na localidade de Vila Nova do Campo, a 7 de Novembro de 1952, nos arredores de Viseu. Era então pároco da freguesia o P.e Mercier, que se tornou conhecido pela sua capacidade de interessar os jovens pela vida da Igreja: sob sua proposta, muitos entraram nos seminários da cidade, tanto no Seminário das Missões como no Seminário Diocesano.

O jovem Ivo seguiu assim os passos do seu irmão José Augusto e entrava no Seminário comboniano aos 11 anos de idade. O seu percurso formativo foi igual ao dos seus colegas: estudos liceais em Viseu e na Maia, Noviciado e Filosofia em Moncada, em Espanha, Teologia no Porto e em Roma. Se em alguma coisa o Ivo se distinguiu, foi na simplicidade e alegria do seu carácter, na abertura e amizade com os seus colegas, na maneira intensa, directa e genuína como vivia o Cristianismo, a sua consagração à vida missionária. Os seus colegas recordaram-no sempre como alguém que unia inteligência e sensibilidade a uma grande simplicidade e generosidade.

Ordenado sacerdote em 31 de Julho de 1977, o P.e Ivo foi destinado a Portugal, onde viveu o seu primeiro empenho de serviço missionário na comunidade de Santarém. Em 1984, pôde finalmente realizar o seu sonho africano: foi destinado à Etiópia, a terra a que havia de se ligar missionária e afectivamente pelo resto da sua vida. Haveria de ser destinado a Portugal, para o trabalho da formação, dez anos depois, em 1994; mas em 2003 foi de novo destinado à Etiópia, até ao momento em que a doença se manifestou e teve de ficar a Portugal para se tratar. A Etiópia, porém, foi sempre sua terra prometida: viveu com ela no coração e com o nome da missão nos lábios. Quando em 2007 regressou a Portugal por causa da doença, que inicialmente combateu com êxito, o P.e Ivo dedicou-se à formação dos candidatos combonianos no noviciado de Santarém e à animação cristã e vocacional dos jovens na região de Santarém e Lisboa.

 

Sem Protagonismos

 

Nos anos que viveu na Etiópia, o P.e Ivo foi missionário em Teticha, uma missão comboniana no Vicariato de Awasa, a 2800 metros de altitude, uma das mais difíceis do vicariato pela altitude, o clima frio, chuvoso e húmido. A missão está organizada numa rede de capelas, algumas muito distantes e com difícil acesso: para as visitar, é necessário fazer horas a pé e passar noites fora, em safari, para assistir as que estão mais longe. O P.e Ivo enfrentou esta situação com serenidade, uma característica do seu carácter que as pessoas cedo notaram: elas sublinharam a sua amabilidade para com todos e a capacidade de ver sempre o lado positivo das coisas. A sua generosidade levava-o a estar sempre disponível para ir onde fosse necessário, até às capelas mais longínquas. Por vezes, para não dizer não ao que se lhe pedia, acabava por assumir compromissos imprevistos. No seu trabalho, procurava construir sobre o que os outros antes dele tinham edificado: procurava conhecer e seguir os planos pastorais previamente definidos. Por isso, não tinha problemas em trabalhar com outros colegas e de bom grado convidava os que tinham trabalhado em Teticha antes dele a darem o seu parecer e fazer uma visita à missão. No seu trabalho missionário mostrou uma grande capacidade de se dedicar à formação e acompanhamento de grupos, de jovens e adultos, particularmente de catequistas. Neste trabalho, ele vivia sem protagonismo pessoal e tinha a preocupação de envolver os outros, os leigos de modo particular: a sua amabilidade e generosidade não eram uma estratégia para conseguir um fim, mas expressão genuína da sua vida de fé e da sua metodologia missionária.

 

Preciosa herança

 

Nestes últimos dois anos de trabalho missionário em Portugal, com os limites que a doença lhe impunham, o P.e Ivo viveu e deixou como testemunho uma preciosa herança missionária. Em primeiro lugar, ele viveu a missão cristã, a que dedicou generosamente a sua vida, como um acontecimento de Igreja antes de ser sua, comboniana. Ele sentia-se em casa, renovado na sua vocação missionária, sempre que regressava à sua igreja de origem, à sua paróquia de Vila Nova do Campo e à diocese de Viseu. Sentia-se parte delas e vivia uma relação de amizade pessoal com os seus responsáveis. E em Santarém desenvolvia o seu trabalho de animação missionária a partir de um sentido de inserção na igreja local, em colaboração e sinergia: ele via na comunhão eclesial uma promessa de fecundidade apostólica para todos os membros da igreja local.

Em segundo lugar, como pessoa de comunhão e harmonia, ele procurava a unidade entre as várias dimensões da missão cristã, dimensões que ele reconhecia na diversidade de carismas e dons que enriquece a vida da Igreja hoje. As exigências da presença e do testemunho, as dinâmicas do diálogo religioso e cultural, as metodologias do primeiro anúncio e da iniciação cristã, os desafios da imersão nas lutas dos homens e mulheres do nosso tempo e nos processos de transformação social, o empenho pela justiça social e pela defesa da criação... todas tinham um lugar e uma compreensão no seu coração. Mas ele sentia, de modo particular, o desafio de as manter unidas na prática missionária a partir de uma dimensão central que para ele era a dimensão do anúncio da Palavra de Deus, do Evangelho de Cristo. Neste sentido, ele considerava a evangelização, o levar o Evangelho aos povos, como a pedra de toque da missão cristã hoje; dedicava tempo à escuta e ao anúncio da Palavra com as dinâmicas que se lhe apresentavam mais adequadas, na Etiópia como em Portugal, desenvolvendo na sua vida uma grande capacidade de comunicar a Palavra a pessoas e a grupos.

 

Dar antes de mais nada

 

Por fim, como comboniano, ele via a sua vida missionária como o partilhar uma graça e um dom recebidos. Na animação missionária orientava-o o desejo de partilhar um dom, antes de receber das pessoas qualquer outra coisa; um dom que pudesse ajudar os outros a viverem a sua própria vocação cristã com um sentido missionário; que pudesse ajudar adolescentes e jovens na descoberta da própria vocação e empenho cristãos. Ele via o trabalho com os jovens e a promoção vocacional como iniciação a um caminho que dura toda uma vida e que passa pela descoberta da própria vocação, pela opção pessoal por Cristo e pela sua missão. Opção que pode florescer e caminho que pode ser feito só num contexto de amizade com Cristo, de companhia e fraternidade cristã.

Amizade, sentido de presença recíproca e de companhia agradável com todos, gente simples e colegas, foram dotes que o P.e Ivo desenvolveu na sua vida missionária, tanto na Etiópia como em Portugal. Para ele, a vocação missionária, para lá das teologias e das ideologias, era um caminho de entrega e doação, de amizade com Cristo e de fraternidade com as pessoas: uma entrega de amor, a todos e aos mais simples, vivida com grande sentido de autenticidade, simplicidade e transparência - uma paixão que o levou do coração das Beiras ao planalto etiópico; de Teticha, a sua amada missão, ao leito do hospital de Viseu onde a irmã morte o veio buscar a 27 de Agosto último, numa Páscoa anunciada no seu sorriso confiante, na alegria serena e transparente que o acompanhou até ao fim.

 

Padre Manuel Augusto

Um dia inesquecível

 

No Chade desde 2008, o Padre João Costa recorda como percorreu 30 quilómetros em duas horas para ir ao encontro de uma recém-criada comunidade cristã. Para os cristãos daquela aldeia, era a primeira missa que tinham na sua nova "igreja".

 

Partimos às 5h30 para visitar a região de Ndam, a 70 quilómetros do centro da paróquia. Demorámos apenas duas horas porque não havia lama no caminho. Mas se para nós foi bom, para os habitantes da região era um mau prenúncio pois já não chovia há muito tempo. O chefe da aldeia partilhava connosco a sua apreensão, dizendo: «Se a chuva não cai nos próximos dias, a fome vai provocar de novo a morte.»

 

A PALHOTA, A IGREJA

Depois de saudar o chefe, fomos visitar o nosso catequista que nos fala dos primeiros passos que se dão no sentido de formar uma comunidade cristã. «A uns 30 quilómetros daqui há já uma comunidade cristã e têm mesmo uma igreja onde se reúnem para rezar», informava o catequista. Surgiu espontânea a ideia de irmos lá celebrar a eucaristia. Pusemo-nos a caminho numa viagem que nos levaria por planícies, caminhos estreitos e paisagens admiráveis. Chegámos a Nangadi, o nome da aldeia que quer dizer «a terra te dá», depois de duas horas da nossa partida. Ninguém sabia da nossa visita, mas ao longe percebemos a alegria de algumas senhoras que se encontravam numa palhota no meio da aldeia.

Em pouco tempo toda a gente da aldeia estava lá para nos acolher, os chefes de Nangadi e da aldeia vizinha, o catequista e os responsáveis da comunidade. Já eram 13.00 e não podíamos perder muito tempo. Manifestámos o desejo de celebrar a eucaristia que foi acolhido com uma imensa alegria por todos. O catequista diz com um certo "orgulho": vamos celebrar na nossa igreja. Em pouco tempo, tudo estava preparado. Ouvimos os cânticos e o catequista chama-nos e indica-nos o lugar da igreja, bem no centro da aldeia. Que surpresa o facto de ser a palhota onde as senhoras nos acolheram quando nos viram ao longe. Encontravam-se a rezar.

 

JESUS PRESENTE

Nesta comunidade há apenas quatro cristãos e dez catecúmenos (adultos que se estão a preparar para receber o baptismo), porém toda a gente estava lá. A iniciativa da construção da igreja foi do chefe, que, mesmo não sendo cristão, dizia: «É importante termos um lugar para Deus, para rezar.» Mesmo os nossos irmãos muçulmanos vieram ver. Tudo estava lá: a Palavra de Deus, a vida desta comunidade, a alegria, a fraternidade. A visita-surpresa das irmãs e do padre parecia algo minuciosamente programado. Jesus torna-se presente pela primeira vez nesta aldeia na eucaristia, mas há muito tempo que habita e dialoga com este povo. Esta comunidade cristã nasceu e cresce pela Palavra semeada no coração de um pequeno grupo e presente num "velhinho" novo testamento e catecismo.

A nossa alegria era imensa e não sabíamos como agradecer a Deus e a este povo o acolhimento, porém, entre cânticos de alegria somos ainda "forçados" a acolher diferentes dons como sinal de agradecimento deste povo: galos, milho, condimentos.

 

Pe. João Costa

 

 

 

Testemunho missionário

 

Olá,

Sou missionária comboniana. Nasci no Brasil e trabalho em Juba, capital do Sul do Sudão, na África, desde 2007.

Juba está situada na margem esquerda do rio Nilo Branco.

O Sudão é o maior país da África e fica no Nordeste do continente. Este país conquistou o coração de São Daniel Comboni, fundador dos institutos combonianos, masculino e feminino. Foi aqui que ele se apaixonou pela África e pelos Africanos e deu a vida por eles. O Sudão é a "terra santa" da família comboniana! O Sudão é grande, e são grandes também os seus problemas, concretamente a partilha entre o Sul e o Norte dos lucros da venda do petróleo; a situação política marcada pela corrupção; as guerras entre as tribos...

A juventude é quem mais sofre, porque está a perder a esperança de um futuro de paz e com justiça. A cidade de Juba cresce desproporcionadamente. Já não tem estrutura para albergar tanta gente. O retorno dos refugiados de guerra e expatriados aumenta ainda mais os conflitos sociais, por causa do desemprego, da pobreza, da falta de oportunidades.

Aqui o modo de resolver os problemas passa quase sempre pelo recurso à violência. E os avanços tecnológicos são postos ao serviço do crime, em vez de estarem suportados pelos valores. É por isso que a missão de evangelizar continua a ser urgente e actual no Sul do Sudão. É preciso trazer a esta terra os valores do Evangelho de Jesus Cristo. É nesse contexto que vivo a minha missão de ensinar Inglês na única escola católica de segundo grau em Juba. A cidade tem muitas outras escolas secundárias, mas católica é só esta.

A Comboni Secondary School foi um empreendimento da família comboniana em Juba para comemorar o centenário da morte do Comboni, em 1981. Irmãs, padres e irmãos combonianos trabalharam em conjunto. Durante dez anos foi a melhor escola da região, aumentando ainda mais a fama da marca Comboni no país.

Em 1992, no auge da guerra contra a islamização e arabização do Sul, todos os missionários estrangeiros foram expulsos de Juba. Então a escola passou a ser da diocese. Catorze anos depois, em 2006, as comunidades combonianas foram reabertas e uma Irmã comboniana está a trabalhar na escola: eu sou a representante da nossa congregação na Comboni School.

A diocese espera que a minha presença na escola restabeleça a fama do passado! Mas nós missionárias e missionários somos sempre poucos para as necessidades da missão. Fazemos o que podemos. A nossa prioridade é apoiar a educação da juventude de Juba. Deus queira que os suores não sejam em vão! Adoro ensinar as minhas turmas de Inglês. Os jovens empenham-se, apesar da pobreza de material didáctico e humano. Usamos e abusamos da criatividade.

Sandra Amado :: Juba (Sudão)