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“Quebremos o silêncio sobre a África”

27 de Julho de 2017

Com a tradicional franqueza que sempre o caracterizou desde quando, como diretor da revista “Nigrizia“, denunciava o comércio de armas e as constantes omissões da política em relação ao mundo empobrecido, o padre Alex Zanotelli dirige agora um pedido urgente aos jornalistas italianos. É um apelo veemente em prol da África, o lançado pelo religioso trentino que, deixando o seu nativo Vale di No, foi parar como missionário no Quênia, em Korogocho, uma das favelas que cercam a capital, Nairobi.


Em outras palavras, é uma pessoa que conhece bem a África, ele que falou tanto da África porque lá, ‘na escola dos pobres’, viveu e sofreu junto com a ‘sua’ gente. Não a África dos que lá chegam como turistas com uma bela viagem bem preparada que só deixa ver o que está dentro dos limites do resort, mas a África da fome e da miséria, aquela mesma miséria da qual tantos fogem com o sonho de alcançar a nossa Europa (que depois os repele). Então, talvez depois de ter lido ou ouvido a clássica última gota, o padre Alex pegou papel e caneta e decidiu escrever aos comunicadores, a todos os que têm os meios e as palavras para formar a opinião pública.


“Desculpem-me se me dirijo a vocês neste tórrido verão, mas é o sofrimento crescente dos pobres e dos marginalizados que me leva a fazê-lo. Para isso, como missionário, uso a caneta (eu também pertenço à vossa classe) para fazer-vos ouvir o seu grito, um grito que encontra sempre menos espaço na média italiana“– assim começa a sua mensagem que tem uma motivação bem precisa: “de fato acho a maior parte da nossa média, tanto a escrita com a televisiva, tão provinciana, tão superficial, tão bem integrada no mercado global… Eu sei que os meios de comunicação, infelizmente, estão nas mãos de poderosos grupos econômicos e financeiros, razão pela qual cada um de vocês tem bem poucas possibilidades de escrever o que gostaria”.


Mas o comboniano não perde a esperança: “Não vos peço atos heroicos, mas apenas que vocês tentem diariamente algumas notícias para ajudar o povo italiano entender os dramas que tantos povos estão vivendo”. Daí o apelo aos/às jornalistas para que tenham “a coragem de romper a omertà do silêncio da média que recai sobretudo sobre a África (são poucas infelizmente as exceções neste campo!)”.


Segue-se uma série de denúncias bem precisas, com prova de um profundo conhecimento dos eventos. “É inaceitável para mim o silêncio sobre a dramática situação do Sudão do Sul (o país mais jovem da África), envolvido numa pavorosa guerra civil que já causou pelo menos trezentas mil mortes e pôs milhões de pessoas em fuga. É inaceitável o silêncio sobre o Sudão, governado por um regime ditatorial em guerra contra o povo nas montanhas de Kordofan, os Nubas, o povo mártir da África, e contra grupos étnicos do Darfur. É inaceitável o silêncio sobre a Somália, em guerra civil há mais de trinta anos, com milhões de refugiados internos e externos”.


“É inaceitável o silêncio sobre a Eritreia, regida por um dos regimes mais opressores do mundo, com centenas de milhares de jovens em fuga para a Europa. É inaceitável o silêncio sobre a África Central, que continua a ser dilacerada por uma guerra civil que parece nunca ter fim. É inaceitável o silêncio sobre a grave situação da zona saheliana, do Chade ao Mali, onde poderosos grupos jihadistas poderiam formar um novo Califado da África negra. É inaceitável o silêncio sobre a situação caótica na Líbia, onde se registra um confronto de todos contra todos, causado por aquela nossa maldita guerra contra Gaddafi. É inaceitável o silêncio sobre o que acontece no coração da África, especialmente no Congo, de onde vêm os nossos minerais mais valiosos.


“É inaceitável – continua o padre Alex – o silêncio sobre trinta milhões de pessoas que estão em risco de fome na Etiópia, na Somália, no Sudão do Sul, no norte do Quênia e em torno do lago Chade, a pior crise alimentar dos últimos 50 anos, segundo a ONU. É inaceitável o silêncio sobre as mudanças climáticas na África que pode ter no final do século três quartos de seu território inabitáveis. É inaceitável o silêncio sobre a venda italiana de armas pesadas e leves para estes países, armas que só servem para aumentar cada vez mais guerras ferozes de que são forçados a fugir milhões de refugiados. (No ano passado, a Itália exportou armas no valor de 14 mil bilhões de euros!)”.


Se não conhece tudo isso – é a sua tese – fica claro que a população italiana (e, talvez, a maior parte da população da UE) não consiga entender por que tantas pessoas estão fugindo de suas terras arriscando suas vidas para chegar até aqui. E alimenta-se assim o que ele chama de “paranóia da ‘invasão’”, fomentada astuciosamente também por partidos xenófobos”.


E depois faz uma avaliação de tom profético, se é verdade que, como foi divulgado nos últimos dias, a ONU prevê que até 2050 haverá cerca de cinquenta milhões de refugiados climáticos provenientes apenas da África: “Os desesperados da história ninguém os vai parar“. E acrescenta uma estocada talvez provocativa que tem de qualquer modo o gosto de um soco no estômago: “Diante disto não podemos ficar em silêncio (será que os nossos netos não dirão talvez o que dizemos hoje dos nazistas?). Não podemos ficar em silêncio diante de outra Shoah [Holocausto] que está ocorrendo diante de nossos olhos“. Na conclusão, o apelo torna-se oração e compromisso: “Trabalhemos todos para que seja quebrado este maldito silêncio sobre a África”.


Imediata a resposta de Alberto Faustini, diretor do diário “Trentino”, que publicou o apelo com um breve comentário à margem junto com a oferta de colaboração. “É verdade: da África fala-se pouco demais – escreve Faustini. – Mas não é uma questão de liberdade. Por favor: não alimentes, tu também, estranhas suspeitas ou, pior, a ideia de que há conspirações. Eu e os meus colegas continuamos a poder escrever o que queremos e o nosso editor anterior, assim como o atual, considera sagrada a nossa liberdade. Por isso também, a publicação deste teu apelo. Nós procuramos nunca ser superficiais ou provincianos, embora sejamos orgulhosamente locais, com um olhar atento sobre o que está acontecendo fora da porta de casa e com uma atenção análoga par o que acontece longe daqui. Você diz que devemos todos trabalhar e eu estou convencido disso”.


“A ti, grande conhecedor da África da dor, da opressão, da violência e da pobreza, para não falar de mil outros tráficos, ofereço uma página em branco que poderás usar quando quiseres falar-nos das questões que te interessam. Peço-te também que não generalizes: nem quando falas de nós que a cada dia tentamos fazer da maneira melhor o nosso trabalho, nem quando falas de quem saqueia a África trazendo à baila as nossas grandes empresas ou os nossos bancos. Nesta época, como escreves tu mesmo, caro padre Alex, neste teu veemente apelo, precisamos de tudo menos de superficialidade. Ajuda-nos a entender, a aprofundar, a melhorar também, mas não ponhas todos no mesmo saco. Só assim, juntos, poderemos um dia quebrar o silêncio maldito sobre a África“.


Aurora: MARIA TERESA PONTARA PEDERIVA

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