PJuvenil Multimédia Palavra de Deus Oração em Missão Antigos Alunos

» Favoritos

» Recomendar

» Imprimir

» Fale Connosco

Revista Além-mar Revista Audácia Jornal Família Comboniana Exposição Missionária Virtual Facebook RSS
Indique o seu e-mail:
Utilizador:
Password:
 

Actualidades

Voltar ao arquivo de Actualidades

Safaris de letras

04 de Julho de 2017

Os registos escritos das viagens africanas fascinam.


 


Heródoto visitou a Líbia e o Egipto há 2450 anos. As impressões que este grego, chamado Pai da História, escreveu fizeram escola atraindo gerações para um continente que se instalou definitivamente no imaginário dos Europeus, e, por via destes, do mundo. Ler quem depois dele se fez aos bosques e sertões de África para no-la dar a conhecer é outra forma de viajar – e de compreender o berço da humanidade.


O meu conterrâneo Alexandre de Serpa Pinto (1846-1900) levou-me de Benguela, na costa angolana do Atlântico, a Durban, cidade sul-africana debruçada sobre o Índico, com a cabrinha Córa e o papagaio Calungo por entre maravilhas e perigos. Abriu caminho pelo interior desconhecido com aguardente, panos e outras bugigangas, numa odisseia de 17 meses a pé, de cavalo, padiola, piroga e carroça.


Como eu Atravessei a África do Atlântico ao Índico relata essa viagem épica e científica extremamente perigosa de Angola até à África do Sul passando pela Zâmbia e o Zimbabué entre 12 de Novembro de 1877 e 19 de Março de 1879. Ilustrou-a com alguns desenhos a traço. Contém muitas notas geográficas e etnográficas e inúmeros registos científicos e medições que o explorador cinfanense fez. Tudo num português com mais de 100 anos: como a língua evoluiu à margem dos acordos ortográficos!


Serpa Pinto baloiçou perigosamente sobre as Cataratas Vitória para determinar a sua altura e posição. Mozia-oa-tunia, o nome da extraordinária cortina de água na língua local, é nas suas palavras «a mais prodigiosa maravilha do continente africano», «uma soberba maravilha que gera sentimentos de terror e tristeza».


Paul Theroux levou-me do Cairo, no Egipto, ao Cabo, na África do Sul, por terra e por água, excepto para entrar e sair do Sudão – teve de tomar o avião. Viagem por África é um diário que anota impressões profundas de lugares e de pessoas. Fala de Comboni, dos missionários, incluindo um comboniano que encontrou no Egipto, censura evangélicos e ONG, apresenta um registo reflexivo sobre o que vê e ouve. «A minha viagem foi uma delícia e uma revelação», escreve logo na segunda página.


Viajei com Gonçalo Cadilhe da Ponta das Agulhas, na África do Sul, até Tânger, em Marrocos. África acima vem num registo muito auto-referencial. O autor viaja por terra e por água usando transportes públicos e boleias. «Abriu» um posto de controlo com comprimidos de alho que ofereceu às autoridades por afrodisíacos.


Outro registo interessante é o diário que o padre Francisco Álvares escreveu da viagem da embaixada portuguesa à Etiópia entre 1520 e 1526 da qual era capelão. Verdadera Informaçam das terras do Preste Joam das Indias, publicado em 1540, é o primeiro livro de viagens sobre a Etiópia. Li-o quando vivia no país – a páginas tantas fiquei com a impressão que uma parte da Etiópia estava parada no tempo. Descreve a corte ambulante do rei Lebna Dengel no seu esplendor, o quotidiano e a fé dos Abissínios, com alguns mal-entendidos à mistura.


De onde vem esta atracção pela África, pelas viagens e pelos seus diários? Gonçalo Cadilhe, escritor-viajante, explica: «Tal como a vida, que não se repete quando termina, também cada dia em África pede para ser absorvido como se não houvesse outros. Sei porque me sinto tão sensível, tão vivo: porque este continente restitui ao europeu a sua fragilidade de grão de areia perdido no deserto da eternidade. É uma descoberta. Uma vertigem.»


Pe. José Vieira (MCCJ) – Revista Além-Mar, Julho de 2017

Comentários

Mostrar comentários | Escrever um comentário