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Palavra de Deus

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O rosto do Transfigurado não aceita rostos desfigurados

II Domingo da Quaresma - Ano C – 21.2.2016


 


Génesis 15,5-12.17-18


Salmo 26


Filipenses 3,17-4,1


Lucas 9,28-36


 


Reflexões


Contemplar o rosto! Uma chave de leitura do Evangelho da Transfiguração e de outros textos bíblicos e litúrgicos deste domingo, é-nos oferecida pela antífona de entrada: «procurai a face do Senhor. A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim o vosso rosto». Uma resposta a esta súplica insistente chega-nos de um monte onde Jesus se transfigurou diante de três discípulos previamente escolhidos: «o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes ficaram de uma brancura fulgurante» (v. 29) Os evangelistas insistem no esplendor luminoso que manifesta exteriormente a identidade de Jesus; de facto, a luz é sinal do mundo de Deus, da alegria, da festa. Aqui a luz não vem do exterior, mas emana do interior da pessoa de Jesus. Com razão Lucas sublinha que Jesus «subiu ao monte para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto seu rosto» (v. 28-29). É pela relação com o Pai que Jesus é dinamicamente transformado: a total identificação com o Pai resplendece no seu rosto.


O caminho de transformação interior é o mesmo quer para Jesus quer para o apóstolo: a oração, vivida como escuta-diálogo de fé e de humilde abandono a Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário. De facto, a contemplação, a oração é a experiência fundadora da missão. Foi essa também a experiência de Pedro, certo de não ter «ido atrás de fábulas engenhosas», tendo sido uma das três «testemunhas oculares… enquanto estavam com Ele na montanha santa» (2 Pe 1,16.18). Entre a confusão e o medo (v. 33.34), Pedro teria desejado evitar aquele misterioso «êxodo» – aquela estranha morte a consumar-se em Jerusalém – de que falavam Moisés e Elias com Jesus (v. 31); teria desejado parar no tempo aquela estupenda visão do Reino (v. 33) como uma perene «festa das tendas» (Zc 14,16-18). Mais tarde, uma vez ultrapassada a crise dos dias da paixão, em Pedro e nos companheiros ganharam vantagem a experiência da intimidade com o Mestre e a escuta do Filho eleito do Pai (v. 35). Desse modo, os apóstolos confirmaram a sua vocação e o empenho por uma corajosa missão de anúncio, até ao martírio. «Escutai-o!», disse a voz vinda da nuvem (v. 36). O Papa Bento XVI convida a escutar o Mestre, a fixar nele o olhar e a não deturpar o rosto da Igreja, com as divisões do corpo eclesial (*)


Pedro teve de sair dos seus esquemas mentais – puramente humanos – para entrar no modo de pensar de Deus (Mt 16,23). O mesmo aconteceu com Abraão (I leitura), acerca do qual o segundo domingo da Quaresma nos apresenta uma das histórias emblemáticas (a chamada, o filho Isaac, a aliança). A Abraão – idoso, sem terra nem filhos – Deus promete uma terra e uma descendência, mas em troca pede-lhe a total adesão do coração, a fidelidade à aliança (v. 18). Abraão aprende que acreditar não é uma coisa periférica, marginal, mas comporta a deslocação do baricentro da sua vida sobre Deus. Pela fé, como explica S. Paulo (II leitura), temos a capacidade de permanecer «firmes no Senhor» (v. 4,1) mesmo nas provas, não procedendo «como inimigos da cruz de Cristo» (v. 18), mas como amigos que O esperam «como Salvador» (v. 20).


O rosto transfigurado e fascinante de Jesus é um prelúdio da sua realidade pós-pascal e definitiva; a mesma que é prometida também a nós. É nesta vocação à vida e à alegria que encontra o seu fundamento máximo a dignidade de cada pessoa humana, que por nenhum motivo deveria sofrer deturpações. Infelizmente, ainda hoje, em todos os países, o rosto de Jesus é frequentemente deturpado em tantos rostos humanos, como afirma o documento dos Bispos latino-americanos em Puebla (México, 1979): «Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire na vida real traços muito concretos, nos quais temos de reconhecer o semblante de Cristo sofredor, do Senhor que nos interroga e nos interpela» (n. 31). E segue-se uma sequência de deturpações: rostos de crianças doentes, abandonadas, exploradas; rostos de jovens desorientados e explorados; rostos de indígenas e de afro-americanos marginalizados; rostos de idosos marginalizados pela sociedade familiar e civil (cf. Puebla 32-43). E a lista poderia continuar com as situações que cada um conhece no seu próprio ambiente. São outros tantos apelos prementes à consciência dos responsáveis das nações e aos missionários do Evangelho de Jesus. Missão é restituir e garantir dignidade e sorriso aos rostos deturpados e desfigurados.


Palavra do Papa


(*) Além disso, este «convertei-vos a mim de todo o coração» é um apelo que envolve não só o indivíduo, mas também a comunidade. Na primeira Leitura, ouvimos também dizer: «Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, juntai os anciãos, congregai os pequeninos e os meninos peito. Saia o esposo dos seus aposentos e a esposa do seu leito nupcial» (vv. 15-16). A dimensão comunitária é um elemento essencial na fé e na vida cristã. Cristo veio «para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos» (Jo 11, 52). O «nós» da Igreja é a comunidade na qual Jesus nos congrega na unidade (cf. Jo 12, 32): a fé é necessariamente eclesial. É importante recordar isto e vivê-lo neste Tempo da Quaresma: cada qual esteja consciente de que não empreende o caminho penitencial sozinho, mas juntamente com muitos irmãos e irmãs, na Igreja.


Por fim, o profeta detém-se na oração dos sacerdotes, os quais, com as lágrimas nos olhos, se dirigem a Deus, dizendo: «Não transformes em ignomínia a tua herança, para que ela não se torne o escárnio dos povos! Porque diriam: “Onde está o seu Deus?”» (v. 17). Esta oração faz-nos reflectir sobre a importância que tem o testemunho de fé e de vida cristã de cada um de nós e das nossas comunidades para manifestar o rosto da Igreja; rosto este que, às vezes, fica deturpado. Penso de modo particular nas culpas contra a unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesial. Viver a Quaresma numa comunhão eclesial mais intensa e palpável, superando individualismos e rivalidades, é um sinal humilde e precioso para aqueles que estão longe da fé ou são indiferentes.


Bento XVI


Homilia de Quarta-feira de Cinzas, 13.2.2013


Colaboração e agradecimentos


Coordenação: P. Romeo Ballan - Missionários Combonianos (Verona)


Sítio Web: «Palavra para a Missão»