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Palavra de Deus

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Simples acontecimentos de noticiário ou história de salvação?

III Domingo da Quaresma - Ano C – 28.2.2016


 


Êxodo 3,1-8.13-15


Salmo 102


1Cor 10,1-6.10-12


Lucas 13,1-9


 


Reflexões


Existe uma forma diferente de encarar as desgraças? Pode ser um convite à conversão do coração? Vítimas nas Torres Gémeas, terramotos, tsunamis, ciclones, mais um acidente sábado à noite, Auschwitz e Hiroshima… E todas as vítimas de atentados, massacres, acidentes, catástrofes, violência, exploração, cancros, epidemias, sida… De quem é a culpa destes males? Deus tem a ver com isso? Que pensa Ele disso? Como interpreta Jesus acontecimentos do género? São algumas das muitas perguntas que ocorrem perante males como estes. Também Jesus está atento aos factos e informado sobre os acontecimentos do dia (Evangelho): reflecte sobre eles, julga-os com critérios próprios, não segundo a mentalidade corrente, faz sobre eles uma análise crítica, comenta-os de uma forma que hoje diríamos politicamente incorrecta, incómoda, desconcertante.


Alguns queriam envolver Jesus numa crítica pública a Pilatos por um acto sem dúvida sanguinário e sacrílego (v. 1). A lição que Jesus tira daquele acontecimento, como também da morte de 18 pessoas devido à queda da torre de Siloé, vai muito para além da interpretação comum da maioria, para ver aí o convite de Deus a uma mudança de vida, para não perecer todos do mesmo modo (v. 3.5). A tentação era dúplice: no caso de Pilatos, pensar que bastaria revoltar-se e suplantar o procurador romano; no caso das vítimas da torre, pensar de imediato num castigo devido a um pecado, ou em acção de agentes externos (Deus, incluído). É a reacção mais frequente e mais cómoda: apontar o dedo a outros, procurar um culpável externo, pensar que o mal está nas coisas fora de nós, relacionar doenças ou desgraças a culpas cometidas ou a um castigo divino… São atitudes típicas da mentalidade pagã, que os missionários encontram frequentemente em ambientes não cristãos, mas também em cristãos não totalmente convertidos. (*)


Tal mentalidade, por um lado, impede de chegar às verdadeiras causas dos problemas que nos acontecem e leva-nos ao fatalismo e à passividade; e, por outro, induz-nos à falsa ideia de um Deus castigador e intervencionista. Jesus liberta-nos dessa mentalidade; Ele vai à raiz dos problemas: convida à conversão, a mudar o coração para que as coisas melhorem. As coisas correrão melhor se as pessoas mudarem desde dentro; só pela mudança do coração é que haverá um melhoramento das estruturas humanas, religiosas, socio-políticas. É esta a notícia boa e nova, o Evangelho que transforma a mentalidade, o coração, a vida. Aquele comentário de Jesus sobre os acontecimentos de noticiário não é uma evasão, mas uma leitura mais profunda. O Evangelho não passa ao lado da história, não se limita a tocá-la ao de leve, mas entra dentro dos acontecimentos, chega à consciência das pessoas: é aqui que Deus constrói o seu Reino de amor e de liberdade. «O Reino de Deus não é algo de paralelo à história, mas interpela-a e interpreta-a. Os acontecimentos da nossa vida permitir-nos-ão compreender melhor o alcance da mensagem» (Gustavo Gutiérrez). Tocamos aqui a relação, sempre misteriosa, entre a Providência divina e a autonomia da história com os seus acontecimentos, que não são, por si mesmos, portadores de castigo ou de prémio. Pelo contrário, o cristão, com discernimento iluminado pela fé, sabe ler neles uma mensagem, um convite à conversão, uma oportunidade de arrependimento, o sentido da existência humana…


Perante acontecimentos dolorosos e atrozes, ocorre a pergunta: onde estava Deus com a sua omnipotência? Mas corre-se o risco de esquecer os amplos espaços de liberdade e de responsabilidade humana que Deus confia ao homem. Se o homem não muda, se não se converte em construtor de aliança e de liberdade, esta terra desabará porque fundada sobre a areia da violência e da injustiça. «Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo» (v. 3.5). Por isso Deus usa connosco de misericórdia e paciência: oferece-nos o tempo como realidade na qual se concretiza a salvação. Melhor, concede-nos um tempo suplementar, «ainda este ano», para dar fruto (v. 7-9). No homem que quer cortar a árvore (v. 7) podemos ver a nossa ideia falsa de um Deus castigador, duro, impaciente. Ao contrário, Ele identifica-se com o agricultor que poda e cultiva as videiras para que dêem mais fruto (cf. Jo 15,1-2); Ele é o vinhateiro, que espera com paciência, disposto a fazer intervenções de tratamento e manutenção (cava e aduba: v. 8). Jesus vai ainda mais longe: é o novo grão de trigo que cai e morre nos sulcos da humanidade para produzir muito fruto (Jo 12,24).


Que a experiência do povo de Israel, aconselha Paulo (II leitura), sirva de exemplo e advertência para nós (v. 6.11): apesar de todos terem sido testemunhas e participantes de inúmeras obras de Deus a seu favor, muitos não corresponderam às expectativas de Deus e perderam-se (v. 5). A advertência é clara: ninguém se leve de ilusões por presumíveis méritos, mas viva humildemente em coerência (v. 12). Sempre com a confiança posta em Deus, amante e libertador do seu povo. Foi assim que Deus se auto-revelou a Moisés na sarça que ardia sem se consumir (I leitura): Deus da vida, Deus dos antepassados (v. 6), Deus que vê a situação miserável do seu povo, houve o seu clamor, conhece as suas angústias, aproxima-se para o libertar (v. 7-8). Ele é Aquele que é (v. 14), Deus presente sempre, por toda a parte, para todos. Emanuel. Uma presença criadora e libertadora. O empenho evangelizador dos grandes missionários nasce sempre, como para Moisés (v. 4-5), de uma forte experiência de Deus e do envolvimento pessoal no sofrimento dos outros: tal foi o caminho de Francisco Xavier, Pedro Chanel, Daniel Comboni, Francisca Xavier Cabrini, Teresa de Calcutá…


Palavra do Papa


(*) Neste tempo de Quaresma estamos a preparar-nos para a celebração da Páscoa, quando renovaremos as promessas do nosso Baptismo. Caminhemos no mundo como Jesus e façamos de toda a nossa existência um sinal do seu amor pelos nossos irmãos, especialmente os mais débeis e pobres, assim edificamos para Deus um templo na nossa vida. E assim fazemos com que ele possa ser «encontrado» por tantas pessoas que vemos no nosso caminho. Se formos testemunhas deste Cristo vivo, muitas pessoas encontrarão Jesus em nós, no nosso testemunho.


Papa Francisco


Angelus - III Domingo de Quaresma, 8 de Março de 2015


Colaboração e agradecimentos


Coordenação: P. Romeo Ballan - Missionários Combonianos (Verona)


Sítio Web: «Palavra para a Missão»