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O Congo de novo em chamas

24 de Fevereiro de 2017

O país no caos após o fracasso do acordo de 05 de dezembro que previa a extensão do mandato de Kabila por um ano em troca da nomeação de um novo primeiro-ministro. Conversa com o provincial dos Combonianos do Congo


Luca Attanasio


Roma


 


Foi o próprio Papa, à margem do Angelus de domingo, 19 de fevereiro, que lançou o alarme sobre as persistentes "notícias de confrontos violentos e brutais" que vêm de todos os cantos da República Democrática do Congo. Na semana passada 25 civis hutus foram decapitados numa emboscada realizada pela milícia Mai-Mai Mazembe na martirizada província de Kivu Norte, e seriam mais de 100 as vítimas dos confrontos desencadeados na região de Kasai Central de onde, o bispo de Luiza, fala de "atrocidades inimagináveis contra cidadãos pacíficos". A própria Kinshasa é teatro de violências e assaltos.


Na origem destes novos focos de violência, em muitas regiões do grande país africano, está a profunda instabilidade política em que o Congo mergulhou devido à recusa de Joseph Kabila a deixar o poder. O seu mandato, de acordo com a norma constitucional, teria expirado em dezembro passado. No entanto Kabila, que chegou ao poder após o assassinato do seu pai Laurent-Désiré (presidente de 1997 a 2001), aduzindo razões de segurança, primeiro declarou querer mudar a Constituição e depois entrincheirou-se no palácio presidencial, rejeitando qualquer negociação.


No clima turbulento que se instalou surgiram com sempre maior força grupos e facções que se tornaram protagonistas de violências generalizadas ou de confrontos com as forças do governo. Entre eles destacam-se o Bundu dia Kongo (uma espécie de seita militar em ação principalmente na área da capital, em cujo topo está o líder carismático Ne Muanda Nsemi) ou a milícia Kamuina Nsapu (do nome do seu falecido líder) muito ativa em Kasai. Portanto o acordo pré-natalino, que fazia vislumbrar uma nova fase de paz, parece perder cada vez mais o seu impulso. Neste clima de vazio institucional, chega a funesta notícia da morte de Etienne Tshisekedi (01 de fevereiro), figura histórica da política congolesa e referência de grande parte da oposição.


Estando em Roma para uma reunião dos superiores Combonianos, Joseph Mumbere, provincial do Congo, oferece a Vatican Insider a sua visão dos eventos, entre esperanças de pacificação e temores de queda no abismo da guerra civil. "O problema geral é institucional. Kabila, em todos estes longos anos criou muito mal-estar e o mal-estar gera reações. Grupos armados surgem por a parte. Existem dois tipos de luta atualmente: a levada adiante por quem ainda acredita numa saída política e está lutando por um Congo com instituições fortes que respeitem a Constituição, e a dos movimentos que usam armas e violência. Os terríveis conflitos que estão ocorrendo na província de Kasai têm várias origens. Entre elas está a reivindicação de um partido político que participou das negociações para o acordo de 5 de dezembro, que esperava poder desempenhar imediatamente um papel político. Agora, ao grito de "Kabila não é congolês" estão incentivando a violência em toda a região. Além disso, em especial no leste do país, existem grupos que lutam por meros interesses geopolíticos e econômicos, ou outros ainda que têm origens externas ao país, como o ADF/Nalu [Forças Aliadas Democráticas/ Exército Nacional para a Libertação de Uganda], que é apoiado por forças de Uganda e rebeldes ruandeses que vieram durante o genocídio. O país está numa situação caótica devido ao falecimento de Etienne Tshisekedi, o símbolo da oposição a Kabila, pai e filho, capaz de obter um consenso transversal dos grupos. No momento não há nenhum verdadeiro líder capaz de tomar as rédeas da luta anti-Kabila".


E no entanto, no final do ano, surgiram novas esperanças. "O acordo – explica Mumbere – era um sinal de esperança. A assinatura levou a uma trégua e à proposta de um roteiro que previa o fim do mandato de Kabila em dezembro de 2017 e uma série de medidas práticas: a nomeação de um novo primeiro-ministro, uma comissão que deveria supervisionar o cumprimento do acordo. Mas não se consegue chegar a um consenso sobre os nomes, e sobre a natureza da comissão. E, entretanto, morreu o único líder capaz de impor respeito e manter juntos os grupos da oposição. O acordo deu esperanças, mas no momento está tudo bloqueado".


A Igreja sempre teve um papel decisivo no país. Assumiu um perfil político, para todos os efeitos. "A Igreja sempre esteve muito ativa no âmbito social e político, é a única instituição que tem presença no país inteiro, em todos os cantos" – afirma o provincial. "O próprio Kabila – acrescenta – após o fracasso das negociações conduzidas pelo togolês Edem Kodjo, se dirigiu ao então presidente da Cenco (Conferência Episcopal) Marcel Utembi para dialogar com as oposições. Até àquela data nenhum partido anti-Kabila tinha tomado parte nas negociações. Graças à mediação da Igreja abriu-se a temporada do diálogo e atingiu-se o único acordo que fez com que todos se sentassem ao redor da mesa".


 "Os missionários Combonianos estão nas áreas mais críticas do Congo, por exemplo em Butembo, no Kivu, ou na região do Uele no Nordeste, ou em outras áreas onde as comunidades estão sob pressão constante. Estamos bem no meio deles: a escolha é de ficar entre as pessoas, onde a população talvez quisesse fugir, ficar lá e ajudá-la a ficar. É um compromisso que assumimos, especialmente nas regiões de difícil acesso, onde não existem estradas, a infra-estrutura não existe: mantemos escolas, hospitais, ou estamos simplesmente presentes ao lado de pessoas".


À pergunta sobre quais são os seus medos e as suas esperanças, o padre Joseph afirma: "A primeira esperança é na juventude. Muitos jovens tomaram consciência da luta pela mudança. Se chegámos ao ponto de Kabila concordar em não mudar a Constituição e marcar, embora após um ano, novas eleições, foi também graças a eles. Alguns desses jovens perderam até suas vidas pelos seus ideais. Mas temo que estes mesmos jovens possam ser manipulados: o desemprego é muito elevado, há muitos problemas, há risco de mais violência. O perigo de uma guerra civil é real".


Texto publicado originalmente em Vatican Insider.

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