Actualmente vivo em Balama, na diocese de Pemba, na província de Cabo Delgado, a 300 quilómetros da cidade, em Moçambique. A paróquia tem cerca de 75 comunidades que visitamos regularmente.
O pároco é um padre diocesano e na nossa comunidade somos cinco irmãs. Nestas comunidades, aos domingos, os catequistas reúnem as pessoas para a catequese ou para a celebração da Palavra e, de vez em quando, têm a Eucaristia.
Mar de sofrimento
A poucos quilómetros da missão temos, desde há cinco anos, uma guerrilha muito forte e armada, que está a provocar muitas deslocações internas. Mataram muita gente e todos vivemos com medo.Esta violência ocasiona muita dor física e emocional, pois as pessoas são obrigadas a fugir e a deixar para trás o pouco que tinham.
A violência afecta a todos, também os missionários que partilham a vida com este povo. Só na nossa diocese, os rebeldes saquearam e destruíram oito missões, que tiveram de fechar, pois os missionários foram obrigados a sair. Em 2022, mataram uma das nossas irmãs combonianas [a irmã Maria De Coppi, de 84 anos, dos quais 60 dedicados ao povo e à terra de Moçambique, foi morta com um tiro durante o ataque de um grupo armado à missão em Chipene]. Em 2023, nesta zona, raptaram duas religiosas. Embora mais tarde tenham sido devolvidas vivas, o choque foi enorme. Tudo isto significa uma grande instabilidade e sofrimento para as pessoas. É realmente uma Igreja perseguida.
Na missão temos três campos de refugiados e muitas mais pessoas vivem à volta da missão ou nas aldeias vizinhas. É muito difícil saber com exactidão quantas pessoas são. Cada campo de refugiados tem uma capacidade média de 300 famílias e cada família pode ter 13 ou 14 membros. Nestes campos, não há condições mínimas para uma vida digna, pois a situação é simplesmente terrível: não há comida, não há água, não há escolas ou hospitais. As pessoas vivem como se estivessem num deserto. Têm a sua tenda com dois paus e mais nada.
Até há pouco tempo, tínhamos ajuda humanitária de algumas organizações que trabalhavam aqui, mas todas foram embora. Tentamos fazer o que podemos, mas é muito pouco. É como uma gota de água num mar de sofrimento.
Acompanhar
mulheres deslocadas
No meio de toda esta dor, as missionárias combonianas trabalhamos com mulheres deslocadas, que constituem diferentes grupos e aos quais damos algum tipo de formação técnica. Alguns são grupos de microcrédito, outros são de costura, alfabetização... São grupos que ajudam muito as mulheres, porque, além do que aprendem no âmbito de capacidades técnicas e profissionais, podem exprimir a dor que carregam no seu interior. Há também grupos de escuta, que permitem a estas mulheres, que carregam muito sofrimento, serem ouvidas com calma, sem julgamentos.
Acompanhamos os grupos de microcrédito durante quatro ou cinco meses. Oferecemos-lhes um pequeno montante de capital com o qual podem iniciar uma actividade geradora de recursos. Temos reuniões com as mulheres para oferecer-lhes uma formação básica sobre economia doméstica e elas sentem-se apoiadas e compreendidas. É algo muito simples, mas permite-lhes obter algum dinheiro e, acima de tudo, ter confiança em si próprias. Depois desta formação inicial, elas podem tornar-se independentes e continuar com esta actividade que as ajuda de forma concreta a sustentar a sua família. São mulheres lutadoras, muito fortes e resilientes, que se apoiam e sustentam umas às outras.
Temos muitas outras actividades pastorais, nomeadamente a formação dos jovens. É desolador ver tanta gente nesta situação de insegurança, sem formação, sem escola. Alguns jovens abandonaram a região e os que ficaram estão a organizar-se em grupos. Estamos convencidos de que a educação pode mudar as coisas e que trabalhar nesta área significa trabalhar para homens e mulheres com uma mentalidade diferente, que querem um futuro melhor, pessoas capazes de trabalhar para o seu povo.
Neste trabalho nunca estamos sozinhos, há sempre pessoas que colaboram connosco e ajudam as pessoas a aliviar a sua dor. São estes leigos que nos incentivam a continuar, apesar da insegurança e do medo. Eles são um sinal de que Deus está connosco.