Num mundo em que a tecnologia e a consciência coexistem, a inteligência artificial (IA) impõe desafios e oportunidades que se interligam e nos mostram em que nos tornamos com a tecnologia que desenvolvemos. Quando estive recentemente com um grupo de professores de Educação Moral e Religiosa Católica a reflectir sobre como a IA reconfigura a nossa relação com o tempo e com a própria existência, lembrei-me da ideia de actualizarmos a experiência que temos de tempo para a versão Tempo 3.0, título do livro que escrevi sobre o assunto.
O novo paradigma da experiência de tempo propõe a vivência do tempo profundo como dimensão mais profunda e transformadora, na qual o ser humano encontra o seu potencial de autoconhecimento e evolução através do desenvolvimento da sua consciência. Qual o impacto da IA nesse desenvolvimento?
A evolução da IA orientou-se para interpretar e produzir linguagem natural humana. Hoje, a IA actua mais como uma co-inteligência do que um simples motor de busca avançado, abrindo horizontes na extensão da capacidade humana de pensar. Estarmos cientes disso deveria convidar-nos à introspecção e à redescoberta da dimensão espiritual que nos torna verdadeiramente humanos.
Incorporar a IA na nossa vida quotidiana implica reconhecer tanto as suas potencialidades como os desafios éticos que emergem. Podemos automatizar tarefas burocráticas, traduzir e refinar ideias, mas o pensamento crítico humano será sempre insubstituível. Em contextos educativos, o risco reside na uniformização do saber e na dependência excessiva de respostas prontas, levando à perda da autonomia intelectual. Por isso, torna-se imperativo que os educadores promovam um equilíbrio que permita à tecnologia ser uma aliada no aprofundamento do conhecimento, sem prejudicar o diálogo e a criatividade inerentes ao processo formativo, sobretudo da nossa consciência.
O desenvolvimento da nossa consciência plena, ou noofulness, como um estado de atenção e reflexão que aprofunda a percepção consciente de nós, dos outros e do mundo que nos rodeia encontra desafios provenientes da saturação de informação onde vivemos imersos. Só uma ponderação entre o valor que a co-inteligência traz ao modo de aprendermos seja o que for pode evitar um regresso à dormência da consciência, em vez do despertar que devia acontecer com cada vez maior intensidade, num mundo que cresce em complexidade. Nessa linha, para onde tende o mundo? O mundo tende para a unidade onde o pensamento se revela um acto de amor.
Inspirado por ideias de Teilhard de Chardin, penso que a IA pode ser um instrumento para a emergência do espírito, através da partilha do conhecimento e da construção de uma noosfera (esfera do pensamento humano) que abraça a diversidade cultural e religiosa. O mundo está em constante movimento e as consciências sistematicamente moldadas pelos avanços tecnológicos. Se preservarmos a essência do ser humano como amor, permanecerá o diálogo com o transcendente.
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